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sábado, 26 de novembro de 2011

NO MEIO DO CAMINHO TINHA UM VERBO

De tanta pressa, caiu no esquecimento. Correu para pegar o destino pela mão e foi surpreendida por algo ainda mais revelador. Tinha que escolher, tinha que decidir enquanto ainda era tempo. Passou a vida inteira economizando sentimentos, programando a vida pra depois. Não sabia ela que tinha um verbo no meio do caminho. Pensou, decidiu, morreu. A vida não espera por ninguém - mas isso ela não teve tempo de aprender.

sábado, 19 de novembro de 2011

DAS TAIS MUDANÇAS DA VIDA

Sentada sozinha numa mesa vermelha, ela deixou que sua vida esfriasse tanto quando a cerveja que tomava. Levantou e dançou a noite inteira. Cantou todas as músicas. E enquanto seu suor se misturava com as lágrimas, observava quantas pessoas rodavam ao seu lado. E balançavam. Então o remédio era esse. Pra desfazer a dor, pra se fazer do amor a vida inteira. Não demorou muito para perceber que alguém olhava suas pernas. Nada mau.  

sábado, 12 de novembro de 2011

A NOVIDADE

O nome dele era Gabriel. Tinha 16 anos, todos os braços e todas as pernas. Vivia numa comunidade chamada “Se Deus Quiser”. Se deus quiser, apesar do nome, era um lugar que ninguém queria estar. Ninguém. Gabriel sabia disso.

O menino não lia nem escrevia. Mas era campeão de empinar pipa. Todos os dias, às 16h, ia para a frente do escritório do Doutor Péricles, um advogado que lhe dava o dinheiro do pão em troca de nada. Ele fazia com que, todos os dias, Gabriel chegasse em casa com o sorriso e com o pão.

Tinha 6 irmåos. Um deles era Jonathan, um menino bom que trabalhava pra gente ruim. Gabriel era o homem da família, seu pai morreu no ano passado quando tentava atravessar a rua e uma moto atrapalhou seus planos.

Dia desses, Gabriel foi soltar pipa na praia. Luiza tava lá. Luiza era a filha do Doutor Péricles e Gabriel gostava muito dela. Pipa vai, pipa vem e a galera ficou na praia até mais tarde, até que chegou uma hora em que só restaram os dois. A hora certa. Gabriel chamou Luiza pra dar uma bola nas pedras. O plano era perfeito. Seguraria a mão dela, falaria aquela letra do pagode que tinha ouvido no Bar de Seu Zeca e pimba: depois do beijo, teria uma bela história pra contar. O plano deu certo.

Chegou a hora de Luiza voltar pra casa. Gabriel pegou a menina pela mão e, assim que chegaram ao calçadão, o destino resolveu dar o seu toque na história. Quatro pessoas estavam correndo, uma delas era Jonathan. Aos gritos, Gabriel recebeu a ordem para correr, correr bem rápido. Obedeceu ao irmão mais velho. Com a sirene do carro de polícia como trilha sonora, os seis continuaram correndo. Gritos e sirene. Sirene e muito mais gritos. Um tiro e um corpo de menino no chão.

Gabriel foi atingido por uma bala da polícia. Morreu sem nem saber o porquê. No jornal, falaram que o menino estava vendendo drogas para uma garota inocente. Depois de vender, ele tentou um assalto. Luiza explicou a situação verdadeira, mas isso não saiu no jornal.

Os policiais não se mostraram arrependidos de nada, até porque, Gabriel era pobre e preto. Jonathan virou crente. Doutor Péricles nunca mais entregou o dinheiro do pão a ninguém. Luiza lembra de Gabriel até hoje, se perguntando o porque do mundo ser tão esquisito. Em Se Deus Quiser, tudo continua a mesma coisa.

sábado, 5 de novembro de 2011

RAPIDINHA


Você não passa de um corpo que rola, levanta, puxa, sobe e desce. Mas isso tudo é tão divertido. O embalo, o enlaço, o abraço. Os toques cronometrados nas manhãs corridas. Logo eu me lembro que você não merece uma gota do suor produzido com nossos movimentos descontrolados – e deliciosos. Mas me rendo.

Meu bem, quando sair me chame pra trancar a porta. 


sábado, 29 de outubro de 2011

O QUE OS OLHOS VÊEM

Todos os dias ela se olha no espelho e vê reflexos de outra pessoa. Percebe que existe um brilho azul em seus olhos pretos de noite opaca e misteriosa. Tinha alguém ali. Alguém que não era ela. Lembrou de ter lido em algum livro pseudo fraudulento que existem reflexos tão fortes que se tornam incrontroláveis. Talvez seja assim com as pessoas também. “Algumas pessoas estão tão dentro de nós que é impossível retirá-las por completo”, pensou. 

Já tinha passado por aquela fase infantil onde as projeções do futuro são proporcionais à admiração que se tem pelos pais. Aquela fase onde eles (pessoas que estão tão dentro de nós que blá blá blá) são as principais referências para o futuro. A menina passou a negar tudo o que é. “Não sou assim, não sou”. E mesmo com todas as situações do mundo, com todas as falas de afirmação de personalidade e com 4 seções de terapia por mês, os mesmos reflexos ainda estão – todos os dias – no espelho.